SP-Arte Rotas 2026: estande D3

26 - 30 Agosto 2026 
Apresentação

Correntezas – Da chuva ao mar aberto: a água como rota

 

Muito antes das estradas, foram as águas que abriram caminho pelo território brasileiro. É desse elemento que a Zipper Galeria parte em Correntezas, conjunto no qual a água ora se faz matéria, ora imagem. Em cada trabalho, ela opera como o fio que liga o relevo modelado pela natureza ao corpo que a história inscreve. Da chuva à profundidade do mar, as obras habitam regiões distintas de um mesmo curso.

 

Na pintura de Miguel Penha Chiquitano, a água desce luminosa sobre campos em tons de verdes e turquesas, como se a própria chuva fosse a matéria da tela. Nascido à beira do Rio Cuiabá, filho de pai Xiquitano e mãe Bororo, o artista aprendeu a tratar a floresta como um organismo que respira. Recusa o preto, e é do azul que extrai a umidade das matas, numa paisagem que celebra o mundo natural ao mesmo tempo que adverte sobre a sua fragilidade.

 

Janaina Mello Landini desfia cordas de algodão até que se abram em tramas ramificadas, que lembram deltas vistos do alto ou o percurso de uma bacia. Num dos trabalhos, o desenho se faz branco sobre branco, delicado como um rio adormecido; noutro, um díptico une dois troncos no centro e compõe a imagem precisa da confluência. Arquiteta de formação, a artista investiga como cada fio isolado se vincula ao conjunto, num sistema de rede moldado por forças físicas e pela lenta passagem do tempo.

 

Nas obras de Laura Villarosa, a paisagem é costurada. Rios vistos de cima ganham corpo em fios e camadas de resina, e a pintura se confunde com o têxtil num regime de plena equivalência. Atenta à imaterialidade do ar e ao reflexo instável das águas, a artista faz da paisagem um campo expandido, matéria sensível diante da terra.

 

Willian Santos nos conduz para o fundo do mar aberto. Suas superfícies densas abrigam ecossistemas submersos, nos quais corais e flores aquáticas parecem em mutação permanente. Com encáustica e tintas minerais reaproveitadas, o artista faz da fenomenologia da água uma reflexão sobre a instabilidade ambiental, e cada tela guarda algo de fóssil, de paisagem abissal em suspensão.

 

As águas também carregam pessoas, e é dessa travessia que trata Camille Kachani. Libanês nascido apátrida, filho de refugiados, o artista fez do deslocamento e do pertencimento o centro de sua obra. Em trabalhos recentes, reencena em relevo os retratos que o holandês Albert Eckhout pintou em sua passagem no Brasil, no século XVII, devolvendo volume e presença aos corpos ancestrais que se formaram nestas águas. O que emerge é uma contra-história do país, vista pelos olhos de quem foi silenciado na narrativa colonial dominante.

 

Além do conjunto reunido em Correntezas, o estande apresenta duas esculturas que ampliam a mostra para outros territórios da produção da galeria. Rizza contribui com um trabalho de sua pesquisa recente, em que a forma tridimensional nasce de fórmulas matemáticas e algoritmos, tratando a escultura menos como objeto fixo do que como um campo de forças físicas e ópticas.

 

Giovani Caramello apresenta uma escultura hiperrealista: um homem de pé, descalço, em camiseta branca e calça cinza, o olhar voltado para o alto e as mãos entreabertas, como que suspenso em um instante de êxtase. Caramello parte de desenhos e modelagem digital, imprime a figura em 3D em escala real e retrabalha a superfície à mão, concluindo a peça com pintura individual. Suas figuras condensam os temas de sua poética: a impermanência, a passagem do tempo e a solidão como experiência compartilhada.

 

Reunidas no estande, as obras apresentam a produção atual dos artistas representados pela Zipper Galeria.

Obras