Por que a doação de obras é fundamental para o futuro da arte?

Uma reflexão sobre o papel do patronato na sustentabilidade das instituições culturais e sobre a importância da doação de obras para a construção da memória pública
Maio 19, 2026
Por que a doação de obras é fundamental para o futuro da arte?

O Dia Internacional dos Museus, celebrado anualmente em 18 de maio e organizado pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) desde 1977, foi criado para reforçar a conscientização sobre a importância dos museus em todas as sociedades. Em 2026, o tema proposto pelo ICOM, “Museus unindo um mundo dividido”, nos chama a atenção para a capacidade conciliadora dessas instituições em um cenário global de guerras, polarizações políticas e desigualdades sociais. Mas, para além das reflexões conceituais e simbólicas que cercam a data, o Dia Internacional dos Museus, acima de tudo, é pretexto para uma reflexão mais pragmática e ainda urgente sobre a própria sustentabilidade desses espaços e dos programas que abrigam. 


Grande parte dos museus mais importantes do mundo foi construída por meio de iniciativas de patronato, que além do financiamento para exposições e eventos pontuais, em muitos casos, sustenta estruturas inteiras, da manutenção da infraestrutura aos programas de educação museal. No Brasil, o MASP, por exemplo, idealizado por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, formou seu acervo graças a uma ampla rede de empresários e apoiadores que compreenderam a importância de formar uma coleção de impacto internacional no país. 

 

Willian Santos - Fonte dos desejos, 2024 - Óleo sobre tela - 215 x 270 cm


Dentro desse ecossistema, a doação de obras tem um papel particularmente relevante. Do ponto de vista museológico, a doação garante condições adequadas de preservação e documentação, e a torna acessível para pesquisadores, estudantes, curadores e visitantes. Para os artistas e colecionadores, quando uma obra é incorporada ao acervo de um museu, ela passa pelo crivo de conselhos curatoriais e ganha uma validação institucional que ajuda a consolidar trajetórias artísticas, separando pesquisas consistentes de movimentos passageiros orientados apenas por tendências comerciais.


Já na ótica do contexto geopolítico do Brasil, manter trabalhos importantes em coleções públicas nacionais significa preservar parte da memória cultural do país. A doação impede, muitas vezes, que obras desapareçam em acervos inacessíveis ou sejam deslocadas definitivamente para coleções sem qualquer acesso público.

 

Flávia Junqueira - Teatro Tivoli BBVA #1, 1924, Lisboa - 2024 - Pigmento mineral sobre papel de algodão - 150 x 198 cm


Nesse contexto, vale destacar que o programa da Zipper Galeria construiu uma presença consistente de seus artistas em prestigiadas coleções museológicas nacionais e internacionais. As obras dos artistas representados integram hoje mais de uma centena de museus e instituições distribuídas pelas Américas, Europa e Ásia. O Museu de Arte do Rio (MAR) é um exemplo bastante indicativo dessa presença. O museu abriga obras de dez artistas da galeria: Adriana Duque, André Penteado, Camille Kachani, Flávia Junqueira, Ivan Grilo, Janaina Mello Landini, João Castilho, Marcelo Tinoco, Rodrigo Braga e Willian Santos. Em São Paulo, instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) reforçam essa relevância institucional do programa, com a incorporação de obras de artistas como André Penteado, Ivan Grilo e João Castilho. 

 

João Castilho - Atmosfera, 2024 - Instalação fotográfica - 235 x 400 cm


No caso de João Castilho, em particular, a inserção institucional alcança quase quinze importantes coleções, incluindo internacionais, como o Musée du quai Branly (França), o Tokyo Metropolitan Museum of Photography (Japão) e o Musée d'Art Moderne (Bélgica). Já Ivan Grilo possui trabalhos em acervos de instituições como o Museum of Modern Art (MoMA – EUA), o Solomon R. Guggenheim Museum (Estados Unidos) e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Espanha), entre outros.

 

Ivan Grilo - Os olhos se abrem, 2025 - Gravação em linho, impressão sobre papel algodão, semente banhada, ferro e vidro - 84 x 180 x 15 cm


Apesar desse cenário positivo, a cultura de doação de obras para museus ainda é bastante tímida no Brasil. Um relatório da Art Basel e UBS publicado em 2025 revelou que, dentre os mercados pesquisados, o país possui o menor índice global de intenção de doação de arte para instituições públicas: apenas 21% dos colecionadores brasileiros afirmaram possuir planos de destinar obras para museus. 


Discutir patronato no Dia Internacional dos Museus, portanto, não significa apenas celebrar apoiadores históricos ou modelos idealizados de incentivo cultural, mas  compreender que o futuro dos museus depende de ações concretas no presente: da ampliação das políticas de incentivo, do fortalecimento institucional e, sobretudo, da construção de uma cultura de doação mais ativa e estruturada. Afinal, toda doação e financiamento para um museu é, em última instância, uma contribuição para a construção da memória pública e para a continuidade da cultura.

Add a comment